Tradutória

Reflexões sobre a Tradução. Confira aqui dicas sobre livros, internet, dicionários, tudo para ajudar o tradutor e um pouco de literatura em geral.

E-mail de atendimento.

segunda-feira, maio 16, 2005


[8:53 AM]

QUEM PRECISA SABER ESCREVER?
por Martha Medeiros (O Globo de 15/5)

RECEBO E-MAILS DE PESSOAS COM idades e profissões diversas. Outro dia, chegou a mensagem de um sujeito muito gentil, fazendo comentários elogiosos à coluna. Cometeu alguns erros gramaticais comuns, como acontece com meio mundo, mas o que me surpreendeu foi que ele se despediu dizendo: "Desculpe por não escrever o português corretamente, mas sabe como é, sou engenheiro." O raciocínio era que se ele fosse escritor, jornalista ou professor, escrever certo seria obrigatório, mas sendo engenheiro, estava liberado desta fatura.

Assim como ele, inúmeras pessoas acreditam que escrever não está na lista das cem coisas que se deva aprender a fazer direito na vida. Antes de aprender a escrever bem, esforçam-se em aprender a falar um inglês fluente, a jogar golfe e a utilizar o hashi num restaurante japonês. Escrever bem? Não parece tão necessário, já que acabamos sendo igualmente compreendidos. "Espero não lhe encomodar com este e-mail, é que fasso jornalismo e queria umas dicas". O recado foi dado, quem vai negar?

É preciso dizer que não há ninguém que seja imune a erros. Todo mundo se engana, todo mundo tem dúvidas. Não conheço um único escritor que não trabalhe com o dicionário ao lado. De minha parte, sempre tenho uma consulta a fazer, nunca estou 100% segura, e mesmo tomando todas as precauções, erro. Acidentes acontecem. O que não pode acontecer é a gente se lixar para a aparência das nossas palavras.

Escrever bem - não estou falando de escrever com estilo, talento, criatividade, apenas de escrever certo - deveria ser considerado um hábito tão fundamental quanto tomar banho ou escovar os dentes. Um texto limpo também faz parte da higiene. Bilhetes, e-mails, cartões de agradecimento, tudo isso diz quem a gente é. Se você não sai de casa com um botão faltando na camisa, por que acharia natural escrever uma carta com as letras fora do lugar?

Trago este assunto à baila porque está acontecendo no Rio a XII Bienal do Livro, que até domingo que vem seguirá colocando à disposição do público dezenas de estandes de editoras, e mais palestras, sessões de autógrafos, debates, bochicho. Um programão. E uma oportunidade de adquirir bons títulos e desenferrujar o português. Sei que todos estão carecas de saber a importância da leitura na vida de uma pessoa, mas não custa lembrar que quem não lê corre muito mais riscos de dar vexame por escrito, e isso não é algo a ser desconsiderado só porque se trabalha numa profissão que, aparentemente, não exige familiaridade com as palavras. Ninguém precisa ser expert, mas ser cuidadoso não mata ninguém. Engenheiros, pilotos de avião, corretores da bolsa, guias turísticos, alfaiates, assistentes sociais, vitrinistas, biólogos, modelos e manequins: a Bienal é para todos.


Postado por Jim |
Speak Out!



 

::Arquivos::